quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Arquitetura de Ferro no Ceará

Senador Pompeu, Ceará 

A arquitetura de ferro chegou ao Ceará na segunda metade do século XIX, importada da Europa, na forma de pontes metálicas para uso na rede de estradas carroçáveis, que servia à exportação do algodão produzido na província, com destino à Europa, tendo como escoadouro o porto de Fortaleza.

A primeira encomenda, feita no ano de 1867 à Casa Lishman & Co. da Inglaterra, foram pontes, em número de sete, que foram colocadas sobre os rios Pacoti, Putiú e Maranguapinho, todos nas cercanias de Fortaleza.

A antiga ponte ferroviária sobre o rio Coreaú, aberta possivelmente em 1881 pela E. F. de Sobral - depois Rede de Viação Cearense - situa-se entre as estações de Granja e Martinópole, na entrada da cidade de Granja - Ceará.

Pouco tempo depois, em 1873, as pontes metálicas passaram a ser utilizadas no transporte ferroviário, na ligação Fortaleza – Baturité, que trazia para a capital a produção agrícola necessária ao seu abastecimento. De todas, a mais notável foi a ponte de Granja, sobre o Rio Coreaú , que servia à Estrada de Ferro de Sobral. 

Posteriormente vieram a ser montadas outras pontes, com vãos mais longos, como as de Senador Pompeu, Iguatu e a mais longa de todas, a de Quixeramobim. Na mesma época, em 1888, a fundição Saracen Foundry, fornece as grades metálicas, correntes e colunas para o Açude do Cedro.

Açude do Cedro em Quixadá. Ao fundo a pedra da galinha choca

A atração dos governos do Ceará pelas estruturas de ferro não parou por aí. Em Fortaleza, das pontes, passou para os trapiches e outras armações. Entre as estruturas de maior expressão aparece a Ponte Metálica, na verdade, um trapiche, avançando mar adentro que funcionou como cais na então chamada Praia do Peixe, de 1906 até o início de operação do Porto do Mucuripe.  

Ponte Metálica em Fortaleza. Construída a partir de 1902 pela firma Walter Max Floriano & Company, de Glasgow, Reino Unido. (arquivo Nirez)

Depois vieram as caixas d’água, que apareciam formando par com os cata-ventos, para irrigar jardins públicos. Á época da construção do Teatro José de Alencar foi erguido o par de caixas d’águas, projetadas pelo engenheiro cearense João Felipe Pereira, que se encontram na Praça Clóvis Beviláqua, atrás do prédio da Faculdade de Direito da UFC.

Praça Clóvis Beviláqua, antiga Praça do Encanamento. As duas caixas d´'água são do início do século XX (arquivo Nirez)

A caixa d'água construída pela empresa Hopkins, Causer & Hopkins, foi colocada inicialmente na Praça do Ferreira, no jardim 7 de setembro. Atualmente encontra-se na cidade da criança (foto arquivo do Blog) 

A utilização dessas estruturas nas edificações no Ceará permanece nos finais do século XIX, usadas primeiramente nas instalações da Estrada de Ferro Baturité, nas oficinas e nas plataformas internas da Estação Central de Fortaleza, inaugurada em 1882. 

Em 1891, no conjunto de escadas  em cruz do prédio da antiga alfândega. No que diz respeito a obras arquitetônicas completas, o primeiro exemplar notável foi o que serviu de base à Igreja do Pequeno Grande, junto ao Colégio da Imaculada Conceição.  

A Igreja do Pequeno Grande foi concluída em 1903 (arquivo Nirez)

Em seguida, cabe destacar o antigo Mercado da Carne, encomendado a Guillot Pelletier, da França, inaugurado em 1897, com dois pavilhões em estrutura metálica, interligados, situado inicialmente na Praça Carolina, onde hoje se acham o Banco do Brasil e os Correios, na Rua General Bezerril. Posteriormente as duas estruturas foram divididas entre os atuais mercados dos Pinhões e da Aerolândia.

O Mercado da Carne é de 1897 (arquivo Ah, Fortaleza!)

Como se vê, o gosto pela arquitetura de ferro é bem anterior a construção do Teatro José de Alencar, a obra mais conhecida e a maior referência do gênero. A preferência se explicava não só pela praticidade, mas porque representava uma grande conquista tecnológica da construção civil. Para a próspera classe dos comerciantes, a arquitetura de ferro além de traduzir avanço tecnológico, lembrava os grandes centros cosmopolitas europeus, com os quais eles mantinham contatos cada vez mais próximos, e nos quais projetavam seus sonhos de civilização e riqueza.

Extraído do livro
Teatro José de Alencar – O teatro e a cidade

2 comentários:

  1. Matéria belíssima, de grande fôlego...

    Mas, quem sabe, une a competência, pesquisa, estética, ética e escrita.

    Obrigada, pela partilha, aprendo muito, aqui...

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