sexta-feira, 25 de março de 2016

A Libertação dos Escravos e a Corrupção na Província

130 anos após a abolição da escravidão no Ceará, pesquisa no acervo do jornal Libertador revela senhores de escravos corruptos e se beneficiando do dinheiro público destinado à compra de alforrias.

Jornal Libertador edição de 25 de março de 1884

O escravocrata Antônio Benício Saraiva libertou seus escravos cinco anos antes da princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Fazendeiro e político, Saraiva concedeu alforria em troca de indenização paga pelo Governo Provincial. Segundo o jornal abolicionista Libertador, o escravista fez da “liberdade” um negócio lucrativo. Inicialmente soltando “seus negros” no município de Baturité, o fazendeiro levou-os para Quixeramobim e alforriou novamente os mesmos escravos – ganhando, assim, indenização em dobro.
 
A denúncia sobre o episódio envolvendo Antônio Benício Saraiva (1823–1920) foi publicada, em outubro de 1883, no jornal Libertador. A história do fazendeiro e outras irregularidades que antecederam a abolição no Ceará foram noticiadas pelo periódico oficial da Sociedade Cearense Libertadora, mais destacada agremiação abolicionista que atuou no Ceará.

Sociedade Cearense Libertadora, composta por Isaac Amaral, Papi Júnior, William Ayres, João Cordeiro, Antônio Bezerra, Dragão do Mar, Alfredo Salgado, Oliveira Paiva, João Lopes, José Amaral, e Antônio Martins. 

Debruçando-se sobre o conteúdo do jornal, o historiador cearense Américo Souza tem encontrado denúncias como: libertação dos mesmos escravos mais de uma vez, histórias de cativos vendidos por preços exorbitantes e relatos de negros “livres” que continuaram sob o domínio dos senhores. Américo é professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab) e, junto dos orientandos Ellen Jardani e George Cavalcante, tem atualizado discussão sobre os processos que levaram ao fim do regime escravocrata.
 
“A abolição da escravidão no Ceará foi, em última instância, um grande negócio, no qual os proprietários foram os que mais lucraram; o povo, especialmente os escravizados, os que mais perderam e o Estado foi quem pagou a conta”, afirma Américo. O historiador ressalta: a “esmagadora maioria” das alforrias foram obtidas por meio de indenização paga pelo Governo Provincial.
 
Criado em 1881 e tendo circulado até 1892, o jornal Libertador cobriu os bastidores da abolição cearense, ocorrida com quatro anos de antecedência em relação ao resto do País. Naquele 25 de março de 1884, Sátiro de Oliveira Dias, presidente da província do Ceará, decretou liberação de todos os escravos dessas terras. Passados 130 anos, o feito é agora analisado para muito além da obra de uma “elite branca, humanista e modernizadora que quis por fim ao regime”, como pontua Américo.

“A quota do fundo de emancipação, agora distribuída ao Ceará, será aproveitada para arranjos e outros fins inconfessáveis, como tem sucedido, se as juntas respectivas não se acautelarem contra esses negreiros infames”, publicou o jornal Libertador em 17 de Agosto de 1883. O fundo monetário estabelecido pelo Governo Imperial era destinado à libertação de escravos e distribuía recursos para a indenização dos senhores.

Sede da Assembleia Provincial do Ceará

Além do dinheiro advindo do Governo Imperial, entre 1868 e 1883, a Assembleia Provincial do Ceará, composta em sua maioria por deputados proprietários de escravizados, aprovou um conjunto de leis que autorizava o Governo Provincial a destinar grande soma de recursos para a compra de alforrias. Assim, os próprios escravocratas criaram leis para conseguir libertar seus escravos em troca de altas quantias de dinheiro.
 
“As denúncias do Libertador revelam a fragilidade do poder público em fiscalizar o cumprimento da libertação dos cativos após o pagamento das indenizações, bem como o caráter clientelista do processo de abolição que foi, em grande medida, um negócio lucrativo”, afirma Américo. Segundo o historiador, os escravocratas encontraram com a liberação dos escravos uma forma de se recuperar dos prejuízos advindos de crise econômica pela qual a Província passava desde o declínio da exportação de algodão, no final da década de 1860.

 
 
Antiga Fazenda escravocrata em Redenção, Ceará
 
Os escravos recém-libertos, por sua vez, não tiveram acesso a recursos do poder público que lhes possibilitassem uma reinserção social. Após a abolição, os ex-escravos se tornaram homens e mulheres livres, mas sem acesso a direitos como moradia e educação. A falta desses direitos, muitas vezes, lhes obrigavam a se tornar empregados de seus antigos senhores e seguir trabalhando em condições equivalentes à escravidão.
 
Outro episódio encontrado no jornal Libertador relata a batalha judicial entre escravistas da cidade de Russas e o Governo Provincial. Visando lucrar ainda mais com a libertação dos cativos, um grupo de senhores acionou o Poder Judiciário para “obrigar” o Governo a pagar quantias mais elevadas pelas alforrias. “Classificados 23 escravos, que estavam nas condições de obterem liberdade, os senhores não quiseram convencionar preço com o coletor esperando coisa melhor perante o juiz municipal”, publicou o periódico 18 de em outubro de 1883.
 
O episódio foi julgado pelo juiz de Russas – chamado na matéria por Dr. Guedes –, que concedeu ganho de causa aos escravistas. O Libertador relata que a decisão dobrou o valor da indenização para a alforria de alguns escravos e denuncia: o pai do juiz estava entre os fazendeiros beneficiados.
Segundo levantamento realizado pelo pesquisador Américo Souza e seus orientandos, o jornal Libertador denunciou – entre 1883 e 1884 – outras 17 ocorrências, além dos casos de Antônio Benício Saraiva e dos fazendeiros de Russas.
 
transcrito do Jornal O Povo

quarta-feira, 2 de março de 2016

Acopiara

O povoamento da região compreendida entre os limites do atual Município de Acopiara, começou em 4 de julho de 1719, nas primeiras décadas do século XVIII, quando foi concedida, ao Alferes Antonio Vieira Pita, pelo Capitão-mor Salvador Alves da Silva, uma sesmaria no riacho Quincoê, medindo três léguas de terra pelo dito acima. 

Com o tempo foram chegando inúmeras famílias que se fixaram na terra, visto tratar-se de excelentes terrenos de ribeira, propícios à agricultura. Os primeiros habitantes eram da família Pereira Silva, clã que ali passou a ser cognominado de "O Lajes", apelido oriundo da natureza do terreno que se apresentava muito pedregoso. 

Mais tarde, o povoado ficou sendo chamado simplesmente de Lajes, bem como a estação de Estrada de Ferro de Baturité, inaugurada em 10 de julho de 1910, também assim denominada. 

Rua Manoel Deodoro

O Município foi criado, desmembrando-se do então distrito de Iguatu, pela Lei nº 1875, de 28 de setembro de 1921, com sede núcleo de Lages, então elevado a vila, e inaugurou-se a 14 de janeiro de 1922. 

A estação de Lajes foi inaugurada em 1910 no povoado do mesmo nome, que passou a crescer exatamente por causa da implantação da estação ferroviária. Nos anos 1920, o então já distrito e a estação passaram a se chamar Afonso Pena e, em 1943 passou a ser chamada de Acopiara.

Elevada a sede à categoria de cidade, pelo Decreto nº 448, de 20 de dezembro de 1938. Foi seu primeiro Prefeito Celso de Oliveira Castro, que ali fixando residência e juntamente com o Monsenhor José Coelho da Rocha, vigário de Iguatu, muito trabalhou pelo desenvolvimento da nova comuna. 


Criada por D. Quintino Rodrigues de Oliveira, 1º Bispo de Crato, a Freguesia data de 12 de outubro de 1921, desmembrada da de Iguatu, tendo sido seu primeiro vigário o Pe. Leopoldo Rolim. A padroeira é N. S. do Perpétuo Socorro. A igreja matriz foi fundada por Monsenhor José Coelho da Rocha, cujo nome é homenageado numa das praças da cidade. 

Lages era a primitiva denominação que um Decreto de 4 de dezembro de 1933, mudou para Afonso Pena. Mais tarde, novo Decreto, de 30 de dezembro de 1943, denominou a cidade de Acopiara. 
 
O município é constituído de 10 Distritos: Acopiara(sede), Barra do Ingá, Ebron, Isidoro, Quincoe, Santa Felicia, Santo Antonio, São Paulinho, Solidão, Trussu.


 
Praça da Matriz
Na década de 1970, Acopiara foi o segundo produtor de algodão do estado do Ceará, mas as constantes secas, bem como a inserção do bicudo em suas lavouras, contribuíram para que sua produção fosse bastante reduzida. Contudo, o ramo algodoeiro ainda tem contribuído muito na economia local. 
 
Como em muitas cidades do interior do Ceará, Acopiara tem em sua produção agrícola a maior fonte de renda, muito embora possa-se verificar que a agricultura se apresente ainda na sua maioria como de subsistência de pequenos produtores. Destaque para o ramo aviário, que cresceu muito nos últimos anos.


Limites: 
Norte: Mombaça, Piquet Carneiro e Deputado Irapuan Pinheiro, Leste: Quixelô e Solonópole, Sul: Iguatu, Quixelô e Jucás, Oeste: Saboeiro e Catarina.  
A área da unidade territorial: 2.265,349 km². 
Distância de Fortaleza: cerca de 345 km. 
Localização: Acopiara está situada na mesorregião do Centro Sul cearense, microrregião de Iguatu. 
População: de acordo com o IBGE, em 2010 a população de Acopiara era de 51.160 habitantes, com projeção de 53.135 habitantes em 2015.

fontes:
IBGE
Wikipédia
fotos: IBGE e estações ferroviárias 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Costa Barros - O Primeiro Presidente do Ceará

O tenente-coronel de engenharia Pedro José da Costa Barros nunca imaginou que encontraria tantas problemas ao chegar a Fortaleza a bordo da corveta Gentil Americana, em 14 de abril de 1824, para assumir o cargo de primeiro presidente do Ceará. A província vivia sob agitação e revolta em razão da atitude arbitrária do Imperador D. Pedro I, que dissolvera a Assembleia Nacional Constituinte, por meio de um decreto em 12 de novembro de 1823.

Poucos dias antes da chegada de Costa Barros, a Câmara da Vila de Campo Maior de Quixeramobim, comarca do Crato, declarou a queda da dinastia Bragantina, excluindo do trono o Imperador. Uma posição mais do que ousada para a época, passível de condenação, degredo ou morte. No comando geral do movimento, estava José Pereira Filgueiras, que ficaria famoso durante os combates travados na Confederação do Equador, movimento republicano e libertário.

sede da assembleia constituinte no Rio de Janeiro

Outro fator desfavorável ao primeiro presidente: no dia 8 de abril houvera eleição para o Grande Conselho do Ceará, sendo escolhidos pelo corpo eleitoral da província, Tristão Gonçalves, Padre Joaquim de Paula Galvão, José Félix de Azevedo e Sá, padre Antônio José de Moura, José Inácio Gomes Parente e padre Manuel Pacheco Pimentel. Havia, portanto, clima propício para não se permitir a posse de Costa Barros no governo cearense. 

Mas o Ouvidor e Coordenador da Comarca, Joaquim Marcelino de Brito, com o respaldo da Câmara de Fortaleza e insuflado pelos portugueses, extingue a junta governista. A eleição dos conselheiros, encabeçada por Tristão Gonçalves, não era ainda conhecida, possibilitando ao presidente da Câmara assumir interinamente as funções de presidente da Província. Costa Barros aproveita a ocasião e desembarca a uma hora da madrugada do dia 15, tomando posse logo em seguida.


 Praça General Tibúrcio, onde se localizava o Palácio do governo
 
Não concordando com a posse, os membros do governo provisório se retiraram para o Arronches (Parangaba), acompanhados do comandante das armas, Pereira Filgueiras, a quem aderiram as tropas, e aí começou a ser organizada a resistência. Costa Barros, no entanto, consegue convencer os amotinados a voltarem para Fortaleza. A conciliação durou poucos dias.

Animados com as boas notícias que lhes chegavam de Pernambuco, e sem confiança na isenção do presidente, Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras resolveram repor o governo provisório e se retiraram para Aquiraz. Nessa vila começaram a reunir forças, marchando sobre Fortaleza no dia 25 de abril, à frente de grande bando armado que veio acampar em Messejana.

Pereira Filgueiras ordena a prisão de várias autoridades locais, destacando-se a do ouvidor Marcelino de Brito, que foi recolhido ao navio inglês Jubille. Ao mesmo tempo envia carta ao presidente Costa Barros, exigindo a transmissão do cargo para Tristão Gonçalves. No dia 28, sob comando de Filgueiras, os revoltosos ocupam finalmente Fortaleza. É convocada reunião da Câmara e das pessoas mais influentes, onde se divulga o manifesto de Filgueiras, cuja proposta era a deposição do presidente.

Costa Barros, intimado a comparecer a reunião, protestou contra a violência de que estava sendo vítima e abandonou o cargo. Foi então eleito Tristão Gonçalves presidente temporário da província , o qual assumindo imediatamente o lugar, convidou para secretário o Padre Mororó, fazendo seguir para o Rio de Janeiro o presidente deposto, a bordo do brigue inglês Mathilde, fretado pelo governo para esse fim.  


Porto de Fortaleza

O ânimo revolucionário em Pernambuco influenciava cada vez mais os cearenses. Guilherme Stuart, no seu "Dicionário Bibliográfico", explica a situação da época. Dado o estado de efervescência em que se encontravam os espíritos, efervescência de dia a dia maior com o movimento liberal das províncias limítrofes, impunha-se uma única solução à crise política e o Ceará declarou-se afinal, solidário e parte da República do Equador , sendo a 26 de agosto proclamada a absoluta e completa mudança do regime no grande Conselho de 405 eleitores, e presidindo essa memorável sessão, Tristão Gonçalves, secretariado pelo padre Gonçalo Mororó.
 
O movimento revolucionário no Ceará se amplia e o conflito armado é inevitável. Depois de muita luta, Tristão Gonçalves morre no dia 31 de outubro de 1824, na localidade de Santa Rosa (próximo da margem do Rio Jaguaribe). Sem o principal líder e sem o apoio da maioria da população que não tinha consciência das causas republicanas, a Confederação do Equador fracassa no Ceará, como também nas outras províncias. 

Costa Barros retorna ao governo em 17 de dezembro do mesmo ano, mas desiste dois meses depois, e passa o governo para José Félix de Azevedo e Sá. O agora ex-presidente do Ceará é nomeado presidente do Maranhão, onde administra com dificuldade devido ao tumulto provocado pela ação republicana. Finalmente, em 1926, elege-se senador, ocupando uma das quatro vagas existentes para o Ceará. Segue para o Rio de Janeiro onde permanece até sua morte, ocorrida em 20 de outubro de 1839. 

Aracati, terra natal de Costa Barros

Pedro José da Costa Barros nasceu em Aracati, a 7 de outubro de 1770, filho do português Pedro José da Costa Barros e da pernambucana Antônia de Souza Braga. Com 24 anos alista-se no regimento de artilharia n° 1 do Exército de Portugal, sendo promovido a cabo no mesmo ano. Prossegue com sucesso na carreira militar, chegando a comandar o 1° Batalhão do Regimento de Infantaria de Milícias do Ceará.

Além da carreira militar, Costa Barros destacou-se também na política.Em 1821 foi eleito deputado no Ceará ao Supremo Congresso das Cortes. Recusa-se no entanto, a embarcar para Lisboa, preferindo permanecer ao lado do Imperador, preocupado com a causa da Independência. 

Como compensação, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa. No entanto, no dia 12 de novembro de 1823, D. Pedro dissolve a Assembleia e nomeia Costa Barros Ministro da Marinha. Mas ele ocupa o cargo por apenas dois dias, quando tem a oportunidade de assinar, junto com outros, o decreto de deportação dos Andradas.

Para o historiador R. Batista Aragão, Costa Barros pode ser considerado como o homem das realizações inacabadas: ainda estudante, aluno do curso de engenharia da Universidade de Coimbra, foi obrigado a abandonar os estudos por motivo superior. Junto com outros colegas envolveu-se numa manifestação de hostilidade direcionada a uns religiosos, do qual resultou a morte de um padre. Indiciado como cúmplice, segue em degredo a Angola, onde com os demais culpados, será obrigado a cumprir sentença. 

Eleito deputado à Constituinte Portuguesa, deixa de seguir para Lisboa, preferindo ficar no Rio de Janeiro; eleito em 1822, deputado para a Constituinte Brasileira, foi impedido de tomar posse. Por ocasião da abertura da sessão inicial, encontra-se processado, por envolvimento em processo sobre acontecimentos no ano anterior. Absolvido, assume o cargo, e vê a Assembleia ser dissolvida pelo Imperador. Foi nomeado Ministro da Marinha, mas não exerceu o cargo; guindado ao posto de governador do  Ceará, não pode cumprir o mandado em razão de dificuldades diversas. 

fonte: 
A História do Ceará passa por esta rua 
de Rogaciano Leite Filho 
fotos do arquivo Nirez e google

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Caridade e o Santo Sem Cabeça

Caridade está localizada no sertão do Ceará, microrregião de Canindé, a cerca de 95 km de distância de Fortaleza. Limita-se ao Norte com Pentecoste e Maranguape, a Leste com Palmácia, Pacoti, Guaramiranga e Mulungu, ao Sul com Canindé, e a Oeste, Paramoti. Segundo o censo do IBGE em 2010, o município contava com 20.020 habitantes, e a população estimada para 2015 é de 21.800 moradores.
O santo padroeiro de Caridade é Santo Antônio, devoção iniciada ainda no século XIX, quando por volta de 1880, o padre José Tomais mandou edificar uma capela sob a invocação de Santo Antônio de Lisboa. 

Histórico

Em 1860, o Coronel Antônio Gaspar da Silveira estabeleceu-se neste lugar à margem esquerda das nascentes do Rio Macaco, elevando-se na sua vizinhança, ao leste, um pequeno Serrote chamado Kágado, nome que tomou a nova fazenda. 

A sua especial situação ao lado da mui transitada estrada dos sertões do interior para Maranguape e Fortaleza, aumentou depressa o seu desenvolvimento e em pouco tempo, de fazenda tornou-se um povoado importante pelo seu comércio e pela feira de gados transportados dos sertões criadores de Boa Viagem, Santa Quitéria e Inhamuns.


Numa missão de penitência pregada pelo Padre José Tomais, mais ou menos no ano de 1880, edificou-se uma capela sob o patrocínio de Santo Antônio de Lisboa, em cuja ocasião, o missionário mudou o nome da povoação de Kágado para Caridade.


O patrimônio de nova capela foi doado pelo Sr. Coronel Antônio Gaspar da Silveira, constando uma área de terreno de 500 metros de frente e 200 de fundo, até a base do referido Serrote. A povoação sempre crescente pelo aumento de sua população e a prosperidade de seu comércio depressa se desenvolveu, tornando-se a capela insuficiente para abrigar o povo que a frequentava; pelo que, os seus habitantes decidiram construir uma capela mais ampla. 


Graças aos esforços do padre José Antônio Cavalcante, que, então, era o capelão da igreja, à cooperação do capitão Raimundo Lopes Ferreira e a ajuda dos habitantes da nascente Vila, o templo foi completamente reconstruído e aumentada a antiga Capela, transformando-se numa Igreja regular e suficiente ao recolhimento dos fiéis.

anos 60

Distrito criado com a denominação de Caridade, por ato provincial de 04-01-1911, e por ato estadual nº 1039, de 04-08-1911, subordinado ao município de Canindé.  Elevado à categoria de município e distrito com a denominação de Caridade, pela lei estadual nº 4157, de 06-08-1958, desmembrado de Canindé.  Atualmente o município é constituído de 3 distritos: Caridade, Inhuporanga e São Domingos. 


Igreja de Santo Antônio atualmente e festividade na Igreja de em jun/1983

A história do santo sem cabeça começou quando o então prefeito Raul Linhares, que governou a cidade entre 1981 e 1986 (falecido em 2005), encomendou ao artista cearense Francisco Barbosa de Oliveira, conhecido como Franzé D’Aurora, uma imagem gigante do padroeiro Santo Antônio – um monumento que em tamanho seria o terceiro maior do mundo – com templo e praça pública dotada de infraestrutura necessária para se transformar num polo de atração de fiéis e recanto de beleza turística e lazer da região. O prefeito pensava em transformar a cidade num polo de turismo religioso, aproveitando o potencial  e a vocação da região que já conta com a festa de São Francisco, na vizinha Canindé. 


Morro do Serrote, com o corpo sem cabeça 

O local escolhido foi o Morro do Serrote. A obra teve início em 1992 e quando o corpo da estátua foi concluído, o coordenador do projeto, professor Alexandre, acompanhado de representantes do município, foram fazer uma medição de ventos. Quando chegaram ao alto do morro, concluíram que ali a ventania era muito forte, e principalmente, perceberam que o corpo não tinha condições de sustentar a cabeça que era muito grande, desproporcional ao resto da estátua. 


 A cabeça sem corpo e seu interior

Numa última analise, ficou constatado que a estrutura de tamanha magnitude, já praticamente concluída, precisaria de um reforço interno, devido à intensidade e a força dos ventos naquela altitude, caso contrário  ela não suportaria o peso de uma cabeça com aquelas dimensões. A mudança inesperada alterou o orçamento fazendo com que a conclusão fosse adiada por tempo indeterminado.
 
  
Rua da Cabeça 

Diante do impasse, a cabeça do santo foi abandonada a 3 km do corpo, na Rua 102, no Bairro Conjunto Habitacional, onde permanece até hoje. Já serviu de abrigo para moradores de rua, de motel, de esconderijo e brincadeiras de crianças. Depois, construíram algumas casas na rua e os muros isolaram a entrada da cabeça, que ficou sem acesso ao seu interior. A antiga Rua 102 ganhou notoriedade e um novo nome: Rua da Cabeça. Coisas do Ceará...

fotos de Rodrigo Paiva e Raquel Garcia
out/2014
fonte (Histórico)  e fotos antigas IBGE

domingo, 22 de novembro de 2015

A Tragédia dos Aviadores Alemães em Aracati

Em meados do ano de 1923, três aviadores alemães Werner Junkers, Hermann Mueller e Willy Thill empreenderam o raid Cuba-Rio de Janeiro, utilizando dois aparelhos. Tempos depois, amerissaram em Belém do Pará. Um dos aviões, no entanto, sofreu um acidente no Rio Marajó, onde faleceu o piloto Willy Thill e houve perda total do hidroavião que pilotava.


Junkers e Mueller, porém, não desistiram. Prosseguiram o voo alcançando São Luís do Maranhão, Camocim e Aracati, no Ceará. Vinham na aeronave Junkers D218. Chegaram a Aracati no dia 25 de junho de 1923, às 13h30min debaixo de aplausos e aclamações da população de Aracati e das imediações.

Duas horas depois, às 15:22 horas,  o Junkers D218 estava pronto para seguir o raid, rumo ao sul. A decolagem foi feita sob o maior entusiasmo. Quando, porém, o aparelho fazia uma curva para começar a evoluir sobre a cidade, a multidão atônita, viu o avião fazer um movimento estranho, e capotar no ar, seguindo-se uma grande explosão.



A muito custo conseguiu-se dominar o incêndio, mas os aviadores não puderam ser salvos. Os corpos dos jovens foram transportados para o salão nobre da Câmara Municipal e muitas expressões de pesar foram apresentadas pelo povo de Aracati, tendo o comércio local, encerrado as portas naquele dia.

Passado pouco mais de um ano desse trágico acontecimento, no final de 1924, foi erigido um monumento em memória dos aviadores. Construído com doações da colônia alemã e admiradores de vários Estados do Brasil, o monumento consiste de uma coluna de 3,50 metros de altura, em mármore branco, sobre um pedestal de alvenaria. O trabalho foi executado pela marmoraria de A. Gondim, de Fortaleza.


Era desejo dos promotores que o monumento fosse erigido no local do desastre, mas sendo este um ponto muito próximo ao Rio Jaguaribe, sujeito a inundações periódicas devido as enchentes do rio, o local escolhido foi uma das artérias da cidade – a entrada sul de sua principal rua do Comércio.  

extraído do livro
"Os Monumentos do Estado do Ceará", de Eusébio de Sousa
fotos IBGE e arquivo Nirez   

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Construção e Tragédia do Açude Orós

O ano de 1958 foi mais um ano de seca no Ceará, a exemplo do que já havia ocorrido em 1915, 1919 e 1932. A população sertaneja sofria com a falta de água, alimentos e trabalho. Em setembro de 1958, a alma sertaneja ganhou um novo alento, quando a construção de um grande açude começou a ganhar formas. A obra na região centro-sul do Ceará, no município de Orós, era uma antiga promessa do DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra as Secas – do que seria o maior reservatório do Nordeste, com 2 bilhões de metros cúbicos de água armazenada. 


Com o Orós surgiu a possibilidade de se represar as águas do Rio Jaguaribe e de se aproveitar o famoso boqueirão da região que na parte mais baixa tinha 75 metros de largura. A expectativa era captar toda a água do alto Jaguaribe e seus afluentes. A promessa também incluía energia farta, “que propiciaria extraordinário surto industrial”.

Desde 1911 que já se falava na existência do Boqueirão de Orós, garganta por onde passam as águas do rio Jaguaribe, local propício para receber uma enorme barragem de represamento e aproveitamento consequente das águas armazenadas. Mas alguns problemas de engenharia antecederam a obra: foi constatado que o projeto demandaria uma quantidade astronômica de cimento – para que se obtivesse todo o cimento necessário para a conclusão da obra, seria necessário que, uma composição ferroviária despejasse em Orós, 100 toneladas de cimento, todos os dias, durante três anos.


Após muitos estudos de viabilidade, um engenheiro de Porto Alegre, chamado Casimiro Munarsky, sugeriu fazer-se o açude com parede de terra e em forma de arco, um pouco antes do boqueirão. Com a nova engenharia, o açude deixaria de comportar 4 bilhões de metros cúbicos de água, inicialmente projetados, e passaria a comportar 2 bilhões. Obra realizada no governo de Juscelino Kubistchek, a construção do açude inundou alguns vilarejos próximos, dos quais o mais conhecido era Conceição do Buraco,  hoje Guassussê. A obra foi concluída em 1961.

Quando ainda estava em construção, em 1960, uma rachadura na parede do açude provocou uma grande inundação deixando várias cidades completamente alagados e sem comunicação. Na época, o Rio Jaguaribe, que abastece o açude, passou por uma grande cheia fazendo com que o Orós transbordasse e sofresse um arrombamento parcial. Nesse mesmo ano, o então presidente sobrevoou as áreas atingidas pelas águas, conforme relatam alguns pesquisadores. Por ordem dele, o trabalho de reconstrução foi iniciado imediatamente e, assim, o açude foi inaugurado um ano depois com o nome de Juscelino Kubitschek


 O rompimento da barragem

No dia 22 de março de 1960, notícias procedentes de Orós davam conta da situação em que se encontra a barragem do reservatório: que a mesma encontrava-se em boa situação, podendo acumular três vezes o volume d’água já retido; que chuvas em excesso caídas na região do Jaguaribe motivaram a maior enchente já verificada; que o Rio Jaguaribe se elevara 6 metros em menos de 15 horas.

 

No dia seguinte, os jornais começam a divulgar fotografias da barragem do Orós, prestes a ruir diante da pressão das águas. O DNOCS chama a atenção das populações dos arredores para que abandonem seus lares e busquem locais seguros, onde possam ficar a salvos do dilúvio que estava por vir. O bispo de Limoeiro, em reunião com as autoridades municipais trata das providências para evacuação da cidade; o governador do Estado se reúne com secretários a fim de acertarem medidas do plano de emergência para atender as populações do Baixo Jaguaribe. 

Panfleto original distribuído entre a população. Imagem cedida por Luís Antônio Saldanha, natural de Jaguaribe.

Os jornais trazem relatos de Orós e de Jaguaribe, adiantando que o açude não resiste mais nem por 24 horas. Correspondências da zona jaguaribana registram que as cidades se acham praticamente evacuadas. É tentada a operação lona que consiste na colocação de lonas sobre a superfície da barragem para evitar que as águas lavem a parede do açude. 

Sobre toda a região soltaram panfletos que anunciavam a catástrofe, tida como certa. Os moradores que se retiraram de suas casas se amontoavam nos lugares mais altos, como Poço Comprido, São João do Jaguaribe, Ilha Grande, Quixeré e Tabuleiro Alto, em Russas. 

 


No dia 26 de março, a barragem se rompeu parcialmente. Precisamente às 10 horas um grande estrondo foi ouvido: as águas ultrapassaram o nível da barragem e invadiram toda a extensão do Vale do Jaguaribe, destruindo tudo que se encontrava pela frente, levando de roldão povoações, cultivos e criações, deixando um rastro de morte, miséria e desabrigo, causando prejuízos incalculáveis. 

Obra da engenharia nacional, a barragem do Orós suportou, embora em fase de construção, uma pressão muitas vezes superior ao seu nível de segurança. Todavia, parte da obra teve de ser sacrificada a dinamite, para evitar uma tragédia maior, que seria sua destruição total a um só tempo.
  

Fontes: 
DNOCS
Revista do Instituto do Ceará - datas e fatos para a história do Ceará

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Benjamin Abraão – O Polêmico Secretário do Padre Cícero



Ele foi tido como conterrâneo de Jesus e, por isso mesmo, um segundo enviado de Deus quando chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, e se apresentou como o homem que nasceu em Belém, na Terra Santa. O nome? Benjamin Abrahão. O sírio caiu nas graças do religioso mais famoso do Nordeste, o Padre Cícero, e logo se tornou seu secretário pessoal. Daí em diante, Abrahão se fez na vida. Pois, apesar de ter sido considerado um santo, soube aproveitar as oportunidades para colocar em prática as malandragens dos homens de carne e osso, chegando a ser fotógrafo particular de Lampião para ganhar uns tostões.



Esse sírio – chamado de turco pelos inimigos – chegou ao Brasil com 14 anos, em 1915. Veio fugido das perseguições do Império Otomano pela qual passava a Síria, e da ação sanguinária do general Jamal Pachá, que alistava jovens como Benjamin no Exército. Foi morar com uns parentes distantes, os Elihimas, no Recife, que por sua vez faziam a vida vendendo miudezas no comércio. Virou caixeiro-viajante e começou a explorar a credulidade do povo: contava sua vida na Terra Santa e, entre uma história e outra, vendia os produtos. 

Depois de dois anos perambulando pelo sertão, ele se deparou com um grupo de  romeiros indo a Juazeiro para receber a bênção de Padre Cícero. Decidiu se juntar a eles e, quando chegou, o padre reconheceu Abrahão como diferente em meio a tantos caboclos. Porque era um indivíduo branco, meio alourado e bem mais alto que a média. 

A beata Mocinha (Joana Tertuliana de Jesus, secretária e tesoureira do padre Cícero) se aproximou, a mando do padre, para saber de onde vinha o forasteiro. O sotaque estrangeiro o denunciou e foi aclamado por todos quando disse que vinha da Terra Santa. “Padre Cícero se dirige aos fiéis e diz: meus amiguinhos, Benjamin que está aqui é conterrâneo de Jesus”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello.



Bastaram 15 dias para Abrahão se converter e ser nomeado secretário pessoal do padre. A beata Mocinha era chefe de uma ordem que tinha por objetivo arrecadar donativos para mandar aos padres que cuidavam do Santo Sepulcro na Terra Santa. A presença de Abrahão ali, então, era como uma purificação para a casa. 

O sírio foi esperto. Já no início, ele se declarou ourives e passou a cuidar das joias do religioso. Não demorou a prosperar na vida: comprou ternos de casimira inglesa e gravata de seda pura. Algumas testemunhas contavam que ele cuidava de joias belíssimas que deviam ser de Padre Cícero.


Rua de Juazeiro na década de 1920
 
Para Benjamim Abraão, os anos de 1917 a 1934 – tempo em que viveu ao lado do padrinho – nunca mais seriam os mesmos. Abrahão virou um homem da sociedade.A morte do Padre Cícero, aos 90 anos, fez com que Benjamin caísse em desespero. O padre era o ganha pão do sírio. Para salvar o bolso, então, ele filmou o enterro do padre para a Aba film e, malandro, abriu as portas para depois oferecer à mesma Aba film uma película (e fotos) de Lampião e de seu bando – já que desde 1930 o jornal New York Times noticiava as muitas façanhas de Lampião.

Abrahão tinha, estranhamente, uma credencial de jornalista quando chegou ao Brasil, escrita em francês. Em certa ocasião conheceu o pioneiro do cinema no Brasil, Ademar Albuquerque, que mais tarde criou a Aba Film. Conseguiu filmadora, tripé e uma máquina fotográfica e foi atrás do grupo, pois já conhecia Lampião de uma visita que o cangaceiro fez ao Padre Cícero em 1926, no Juazeiro.




Lampião não apenas fez pose para a foto como chamou o bando de todo o Nordeste para se reunir na filmagem. O resultado:  Noventa fotos de qualidade heterogênea e um filme de 35 mm (hoje restam 15 minutos dele na Cinemateca Brasileira) em que Lampião é transformado em garoto propaganda da Bayer, que patrocinou o filme. Alegremente agitado, ele diz na gravação que até Lampião usa cafiaspirina quando tem dor de cabeça...

Abraão morreu em 1938, em Serra Talhada (PE), assassinado com quarenta e duas punhaladas, sem que o crime jamais viesse a ser esclarecido, tanto na autoria como na motivação, donde se especula ter sido mais uma das mortes arquitetadas pelo Estado Novo uma vez que o sírio teve seus trabalhos apreendidos pela ditadura de Getúlio Vargas, que nele viu um antagonista do regime. Mas também existe a versão de que o fotógrafo sírio-libanês teria sido vítima de um ladrão, apesar de com este nada de valor haver. 


fontes:
Benjamin Abrahão, Entre Anjos e Cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello. Ed. Escrituras. 352 páginas.
wikipédia 
fotos Aba Film