quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os caminhos Primitivos do Ceará Colonial

Vários caminhos foram abertos na capitania do Ceará nos tempos remotos de sua conquista e povoação pelos colonizadores europeus. Essas estradas foram a porta de entrada para as glebas sertanejas, mesmo as mais remotas, e foram utilizadas pelos pioneiros da truculenta civilização ocidental.

Com relação as estradas de ribeiras, cada riacho possuiu a sua, desde tempos imemoriais. O caminho seguia de perto o leito do curso d’água, ora por uma margem, ora pela outra margem, da foz às cabeceiras, e ao longo da qual de hábito se edificavam os currais, as casas dos vaqueiros e até casas senhoriais.


Para o historiador Pompeu Sobrinho, a origem reside no povoamento de sesmarias, que eram concedidas sucessivamente rio acima. Por esses caminhos andavam cavaleiros que percorriam os sertões comprando equídeos para os engenhos de Pernambuco e as boiadas que procuravam as grandes estradas que conduziam aos centros consumidores do litoral.

O mesmo autor defende que as estradas das ribeiras já existiam ao tempo em que estas terras estavam sob domínio apenas dos indígenas. É certo que os tapuias do sertão desciam às praias quando os cajueiros frutificavam; além disso, outras necessidades determinavam uma certa circulação dos sertões para o litoral e vice-versa. Este movimento se fazia ao longo das referidas estradas, cujo traçado, evitando o recesso das caatingas desprovidas de água fácil, se acostava aos leitos dos cursos de d’água onde o líquido precioso era encontrado com facilidade.    

Estrada Velha


A mais antiga alongava-se pelo litoral desde 1611, ligando o fortim de São Sebastião aos mais civilizados centros do Nordeste brasileiro. Percorrendo ora a praia, ora os tabuleiros, era a princípio, uma vereda mal definida, perceptível apenas aos olhos perscrutadores dos índios tupis, aos quais servira de trilha quando algumas de suas malocas haviam sido deslocadas para o Norte.


 Forte de São Sebastião - 1613 

Pela Estrada Velha transitavam certamente os mercadores portugueses, que já ao final do século XVI, acompanhados de nativos amistosos, percorriam nossas praias em busca do precioso âmbar gris (substância produzida pelas baleias cachalotes, de grande valor na Europa); também passou por ali Pero Coelho e os jesuítas Figueira e Francisco Pinto no rumo da Ibiapaba.

Transpondo o Jaguaribe pouco acima de sua foz, a estrada demandava Natal, passando por Amargoso e Guamoré nas costas de Macau; depois, costeando o Atlântico, alcançava a Paraíba. Até 1625, a estrada ainda não chegava à ilha de São Luiz, no Maranhão. Nas praias de Lençoes, a meio caminho entre a ilha e o forte de São Sebastião, viviam os Tremembés, exímios nas emboscadas, e cujas terras não se atravessava impunemente.

Nos primórdios da conquista do Meio Norte, chegava-se ao Maranhão através da Ibiapaba. Para atingir aquele distante platô, seguiam-se rudes itinerários traçados por Francisco Pinto ou pela bandeira afoita do primeiro capitão-mor do Ceará. Dessas veredas que durante anos serviram à intercomunicação das missões jesuíticas ali estabelecidas, não restaram registros do seu traçado. Entre a serra e a costa do Maranhão existiam ligações constantes e mais ou menos conhecidas, utilizadas pelos franceses no século XVI.

Os primeiros europeus que se encaminharam ao Maranhão pela zona marítima, foram os holandeses. Ávidos sempre de dilatar os domínios da Companhia das Índias Ocidentais, os batavos, senhores da fortaleza de S. Sebastião, contaram com a ajuda dos indígenas da região que atraíram com promessas e presentes.  
Estrada da Taquara


Foram os holandeses, novamente senhores do Ceará em 1649, que levados pela cobiça, estenderam rumo ao Monte da Itarema, uma das veredas de acesso às povoações indígenas da vizinhança do forte Schoonemborch. A lenda referia ali ter estado, anos antes, o capitão-mor Martins Soares em busca de minérios preciosos, e era isso quanto bastava para aguçar a avidez dos agentes da Companhia das Índias Ocidentais. 

Mapa elaborado pelos holandeses em 1649, com o forte Schoonemborch e o caminho que levava a Itarema 

Partindo da praia na direção sul, o caminho da Taquara cortava o Rio Pajeú, então denominado Marajaik, transpunha os ribeirões do Tipoig (Jacarecanga) e Piraoba, tangenciava as lagoas de Imboduaponga (Parangaba) e Monduig (Mondubim) para se bipartir pouco adiante do córrego de Itapoba. O braço oriental seguia para a Serra de Maranguape, onde naqueles sombrios tempos se fizeram escavações e sondagens; o braço ocidental, depois de cortar várias vezes o riacho Itarema Igevab, alcançava a Serra de Itarema, hoje Taquara.

Era uma simples picada traçada nas matas ralas do litoral, picada que o trânsito continuado dos artífices estrangeiros alarga e melhora. Jamais teve esse caminho valor histórico ou comercial. Muito frequentado durante a ocupação holandesa, ficou em completo abandono quando o Ceará se viu livre dos invasores pelo tratado de 1654.

Nosso solo, revolvido febrilmente pelas mãos dos estrangeiros, mostrou-se pouco generoso. A percentagem de prata contida no material extraído das minas era diminuta e não correspondia aos esforços e materiais empregados, deixando portanto, aos portugueses o trabalho de prosseguir com a mineração.

O tráfego da Estrada da Taquara só recomeçou muitos anos depois, em 1662, quando a pedido do padre Joacob Cochleo, as diferentes malocas tupis foram reunidas numa grande povoação situada perto da lagoa do Arronches e que tomou o nome de Aldeia do Bom Jesus de Porangaba.

A partir daí o movimento da Estrada da Taquara cresceu dia a dia no trecho Fortaleza-Porangaba. Por ela marcharam levas de prisioneiros de guerra, encaminhados ao fortim de N.S. da Assunção, pelos primeiros colonizadores lusitanos. Ecoam também por sobre seu leito, os passos apressados dos soldados do presidio, no desenrolar das sucessivas expedições guerreiras contra o elemento nativo.

Com o progressivo aumento da colonização, o ramal de Maranguape superou em importância o caminho da Taquara. De Porangaba partiria mais tarde a estrada tronco para Monte-Mor (atual Baturité) e sertões de Quixeramobim. 
  

Estrada Camocim-Ibiapaba


Aos Tabajaras que estabeleceram ligações numerosas entre seus domínios serranos e os costões arenosos do Atlântico, deve-se atribuir a abertura da estrada Camocim-Ibiapaba, uma das mais remotas vias de acesso rasgadas através das regiões setentrionais do Ceará.

Percorrida amiúde por bandos de nativos em seus deslocamentos periódicos, do platô para as praias, era sem dúvida, vereda já batida e tradicional no início do século XVII, quando marchou em demanda da Ibiapaba a expedição desbravadora de Pero Coelho de Sousa.

Brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados. Cada vez mais frequentada, à medida que novos colonos iam se fixando na bacia do Coreaú, a estrada Camocim-Ibiapaba atingiu o ápice de sua importância comercial com a fundação dos Saladeiros de Granja, a cujos produtos dava vazão. Seu tráfego decresceu notavelmente depois da seca de 1792.

Embora desconhecido, presume-se que seu traçado seguisse os mesmos rumos da estrada Viçosa-Granja, reconstruída no governo de Bernardo Manuel de Vasconcellos, e que de Granja para o norte, serpenteasse entre os carnaubais que acompanham o curso de Camocim, realizando assim o mais curto e seguro trajeto entre a serra e o litoral. 

Estrada Geral do Jaguaribe


Uma outra estrada foi constituída quando a bacia do Jaguaribe cobriu-se de fazendas e currais. Partindo da região do Aracati, rio acima, transpunha o Jaguaribe em Passagem das Pedras, atravessava os lugares onde hoje estão as cidades de Russas e Icó, subindo depois o Salgado até quase suas nascentes. 

Rio Jaguaribe - IBGE - anos 50 

Trilhada em alguns dos seus trechos já no tempo dos primeiros exploradores seiscentistas, que não dispondo de rios navegáveis, margeavam de preferência os leitos das ravinas, onde poços e cacimbas lhe forneciam água sofrível, a estrada atingiu cedo as terras meridionais da capitania.

Galgando o platô do Araripe e vencendo a caatinga rala dos sertões pernambucanos, chegou ao Rio São Francisco no início do século XVIII. Embora sujeita na última parte do seu curso, aos solos irregulares da serra, com suas longas travessias sem água e sem pastagem, a estrada avultou rapidamente em importância na economia do interior nordestino. Serviu de passagem ao gado e aos cavalos do sertão para a zona do médio São Francisco, de onde seguiam para os centros de mineração das Gerais.

Foi a mais notável via de penetração de todo o Ceará colonial. Por ela recebeu o Cariri os colonizadores vindos do baixo Jaguaribe, que foram os primeiros ocupantes daqueles rincões fronteiriços e também gente oriunda das margens do São Francisco. Foi também, até o advento da Ferrocarril, a mais importante via de intercâmbio entre o litoral e o interior cearense. Por ela entraram durante todo o período colonial os gêneros de primeira necessidade de que se abastecia o nosso interior e os distantes sertões do Piauí.

Estrada Nova das Boiadas



Da bacia do Jaguaribe chegava-se aos campos criadores do Piauí pela estrada nova das boiadas, caminho difícil e alongado, que hoje, graças as indicações deixadas nos textos das sesmarias, pode ser reconstituído em grande parte.

Vinda de Pau dos Ferros pelo Pereiro, transpunha o Jaguaribe pouco acima da villa de Jaguaribe-mirim; ia em seguida pelo riacho do Sangue no rumo Nordeste; passava ladeando os campos de Uriá, cruzava o rio das Pedras, atingindo  Banabuiú em Laranjeiras; depois de beirá-lo algum tempo, serpenteava junto as margens do seu tributário mais importante, o Quixeramobim, até embocar na cidade do mesmo nome, onde se bipartia.

Um ramal seguia pelo Cavallo-Morto (Boa Viagem), Independência e Crateús, caminhava para o Piauí através do boqueirão do Poti. O outro, indo para o noroeste ia até Sobral, prolongando-se até a capital de Pernambuco, por Barriguda, e Tabuleiro Formoso.

Encurtando distância e desviando o trânsito do litoral para o sertão, a Estrada Nova das Boiadas concorreu grandemente para o isolamento em que muito tempo ficou a sede administrativa da Capitania, pequena e insignificante, enquanto outras vilas se desenvolviam. 
Estrada das Boiadas


Sua origem remonta ao início do século XVIII. Já em 1731 a via é citada em texto das sesmarias cearenses como “a estrada que passa para o Piauí”. Sete anos antes era denominada “caminho dos Inhamuns” ; Icó, Iguatu, São Matheus, Saboeiro, Arneiroz e Tauá balizam hoje em enorme trecho desse velho caminho de acesso às terras do médio Parnaíba.


De Tauá, antiga fazenda de José Alves Feitosa, seguia para o centro do Estado do Piauí pelo antigo riacho dos Camaleões (atual Carrapateiras), atingindo Vertentes e Crateús. Simples picada de tropeiros, a via Tauá-Piauí constitui-se m breve um caminho tradicional, que seguindo o riacho de Trici, encostas meridionais da serra da Joaninha, rumava Valença. Conhecida nas crônicas do Rio Grande do Norte e Paraíba, pelo nome de Estrada das Boiadas, aparece nos documentos cearenses do início do século XIX com a simples designação de “Estrada para Pernambuco”.

Em seu traçado primitivo a estrada passava pelos lugares hoje denominados S. João do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Patos, ia depois margeando o rio Pinharás, galgava a encosta oriental da Borborema, encontrando seis léguas adiante a lagoa do Batalhão, seguia as sinuosidades do rio Taperoá até a povoação de Milagres; alcançava a pequena ribeira do Santa Rosa para chegar a Campina Grande.

Dentre os complexos e numerosos fatores que influíram na formação e distribuição de núcleos povoados do interior cearense, as chamadas estradas das boiadas tiveram papel de maior relevância. 
Estrada da Caiçara


Varando os tabuleiros agrestes, por onde na estação das chuvas corriam para o mar as águas barrentas do Acaraú, alongava-se a Estrada da Caiçara. Ao tempo do desbravamento da zona norte do Ceará, era a única via de comunicação entre o litoral e os povoados da ribeira do Acaraú. Com o passar do tempo e a necessidade de intercâmbio comercial com outras localidades, as contingências geográficas da circulação orientam as ligações do interior cearense com Pernambuco e Paraíba.

O caminho da Caiçara prolonga-se assim pelas caatingas de Santa Quitéria atingindo Quixeramobim, onde passava a estrada nova das boiadas. Tomando essa antiga trilha, podiam os estancieiros das ribeiras do norte, transportar cavalos, boiadas ou tropas carregadas de couro ao Recife, com maior rapidez e sem o ônus dos pesadíssimos fretes marítimos. 

No início do século XIX construíram-se no Ceará novas vias de comunicação, e muitas das velhas estradas tradicionais foram melhoradas. Os caminhos, mesmos os mais utilizados na realidade não passavam de sendas, estreitas e tortuosas, traçadas pelos viajantes em peregrinação. Mal podiam vencê-las cavaleiros e peões. Excetuando talvez a Estrada Geral do Jaguaribe e a do Acaraú, nenhuma permitia a passagem de veículos de roda.   
  
Extraído do texto:
Vias de Comunicação do Ceará Colonial, de Carlos Studart Filho 
Revista do Instituto do Ceará - 1937
imagens da Comissão Científica do Império 1859-1861(meramente ilustrativas)             

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Casa do Umbuzeiro


O Padre José Bezerra do Vale, pernambucano de nascimento, viveu no antigo município de Bebedouro, hoje Aiuaba, onde edificou para sua moradia, contando com a ajuda de trabalhadores vindos de sua terra natal, um dos singulares monumentos sertanejos: a casa-grande do Umbuzeiro, no primeiro quartel do século XVIII.

A Casa do Umbuzeiro em 1940

Historiadores descrevem essa rara construção como um quadrado perfeito, onde o telhado tem a configuração de um triângulo equilátero de qualquer que seja o lado que se coloque o observador, abrindo-se as janelas para o lado exterior, razão pela qual não entra a luz do sol, tornando-a escura em toda sua extensão e compartimentos. Situada a uns 3 quilômetros de Aiuaba, seu nome veio do umbuzeiro que servia de pousada aos trabalhadores pernambucanos que a edificaram.

As raízes do povoado que deram origem à atual cidade de Aiuaba são antigas. Talvez fossem vaqueiros os que ali levantaram as primeiras taipas e cozinharam as primeiras telhas. Vaqueiros a pastorar o gado que vinha matar a sede na lagoa fronteira àquele tabuleiro. 

 Igreja N.S. do Patrocínio em Aiuaba - anos 50 - foto IBGE

Na casa do Umbuzeiro com suas linhas rudes e possantes, elevada num alto ainda existente, morou o padre José Bezerra, que vivia maritalmente com uma tapuia chamada Páscoa, de quem houve numerosa e ilustre dependência. O padre vaqueiro dos Inhamuns, era um daqueles reverendos do sertão primitivo, que celebravam missa de manhã, corriam atrás do boi, e à noite amavam sua índia e cuidavam de sua prole.

A casa é quadrada, com cerca e porteira na frente, e bem ao lado, corre o riachinho da Toalha. Uma porta à direita de quem entra e três janelas à esquerda, com dobradiças em forma de sino. Portas, janelas, caibros, ripas, linhas de cedro. Dez janelas ao todo. E no centro, naquela obscuridade, onde nunca desce a luz do sol, o altarzinho de tijolo, onde o padre José dizia missa para a indiada, para a sua Páscoa. 

De Páscoa resta pouquíssima memória: sabe-se que era gorda e glutona, e como toda índia, de apetite redobrado, pois o elogio maior que se lhe podia fazer era que estava gorda. Do bucho dessa Páscoa saiu muita gente boa: ministros, governadores, deputados, prefeito e até presidentes da República: Wenceslau Brás, Félix Pacheco, Matos Peixoto e padre Cícero Romão Batista, patriarca dos sertões, é o que afirmam alguns genealogistas. 

Aiuaba - vista da cidade - IBGE - anos 50

Esta casa do Umbuzeiro foi também palco de uma tragédia envolvendo um membro da família Feitosa dos Inhamuns. O sargento-mor João Bezerra do Vale, era irmão do padre José, casado com uma Feitosa, Dona Ana Gonçalves Vieira, filha do segundo casamento do Coronel Francisco Alves Feitosa, irmã do capitão-mor Pedro Alves Feitosa e de Manuel Ferreira Ferro, irmãos por parte de pai, filhos do primeiro casamento de Francisco.

Um dia viajou o sargento-mor, como sempre o fazia, para Pernambuco, sua terra de origem, a fim de visitar a família e vender o seu gado. Demorava sempre nessas viagens o tempo que queria. Naquela, porém, a demora foi maior do que de costume e quando o sargento-mor retornou, chegando à sua fazenda Cabaços, duas léguas de sesmaria abaixo do Cococi, margem direita do Jucá, notou sua mulher, Dona Ana, que ele vinha triste, sem alegria, não demonstrando o menor entusiasmo ao vê-la e aos filhos.

O sargento-mor se apaixonara por uma moça de Recife, Pernambuco, não se sabe bem se moradora de uma das suas propriedades naquela capitania, com a qual havia ajustado casamento, se passando por solteiro. E certo dia, não podendo suportar mais as saudades da amada distante, o marido de Dona Ana chamou à parte os cunhados Pedro e Manuel, confidenciando-lhes que Dona Ana o estava traindo, deitando-se com outro na beira do riacho dos Cabaços, bem atrás da casa.

Ouviram os cunhados ferozes, de cabeça baixa, ruminando vingança, a história do sargento-mor. Porém, disseram que o sargento-mor não se precipitasse no acontecimento. Apurasse tudo direitinho, e apanhando a mulher em flagrante de adultério, punisse Dona Ana dentro das regras do código de honra do sertão: a morte, dela e do amante.

Aiuaba - centro comercial - anos 50 - acervo IBGE

Mas – disseram ainda os irmãos – que se ele João, nada provasse contra a honra da irmã, o falso testemunho dele teria seu revide dentro do mesmo código: a morte.Dito por dito, o sargento-mor meteu uma faca de prata em Dona Ana, mandando-a para o outro mundo, sem culpa alguma de pecado. Depois, desesperado, o assassino correu para a casa do mano, a velha casa do Umbuzeiro, onde se deixou ficar trancado, num quarto escuro. Logo depois, chegaram em sua perseguição, Pedro Alves Feitosa e Manuel Ferreira Ferro, com suas facas e trabucos e um bom número armado de valentes e escravos.

O padre José os recebeu como era de hábito, oferecendo-lhes bancos e cadeiras de couro. Sentaram-se diante do padre, que começou a conversa dizendo saber de tudo o que havia ocorrido em Cabaços. Então o capitão-mor Pedro Alves Feitosa mostrou ao padre uma faca prateada, com a lâmina ainda ensanguentada, do crime prometido pelo sargento-mor.

Tranquilamente, ponderou-lhes o padre: – os senhores estão sob o meu telhado. Peço-lhes que respeitem esta casa onde moro. Meu irmão está aqui. Deixem-no sair, sem que lhe seja feito nenhum mal. Daí por diante o resto é com os senhores... é tudo quanto lhes peço.

Ouvindo o reverendo, Pedro guardou a faca na bainha, colocando-a na bota, permanecendo o cabo fora dela. Foi quando Leonarda, uma das filhas do sargento-mor, que estava passando algum tempo com o tio-padre, ouvindo o diálogo, correu sobre o capitão-mor, seu tio, retirando-lhe da bota a faca que matara sua mãe e lançou-a fora da casa por uma das janelas. A faca foi cair no terreiro onde descansavam os animas. Um escravo de Pedro foi buscá-la, mas nunca ninguém a encontrou. Pedro e Manuel foram embora.

João foi-se depois, saindo em paz da casa do irmão padre tomando a direção de Pernambuco. No seu encalço seguiram os dois cunhados vingativos. O certo é que o sargento-mor não apareceu nunca mais no mundo dos vivos. Jamais foi visto nos Inhamuns e em tempo algum chegou ao seio da família em Pernambuco. 

foto de Clóvis Jucá

A casa velha do Umbuzeiro, que foi morada do padre e de sua índia Páscoa, que comia muito e paria muito, tem fama de mal-assombrada. A gente de Aiuaba conta a história de duas famílias que nela foram morar e dela saíram ricas, desencavando botijas. A casa do padre está de pé, solitária e  sinistra. Cercam-na já a lenda e a superstição do sertanejo.


Extraído do livro: 
O Clã dos Inhamuns, de Nertan Macedo      


terça-feira, 4 de julho de 2017

A Queda do Coronel

Nertan Macedo

Esta é a história de um pacto de coronéis sertanejos, celebrados no Juazeiro, do Padre Cícero, no ano longínquo de 1911. O assunto é puxado a rosário, rifle e punhal, temperos de quem gosta e se dispõe a saborear esses componentes da saga nordestina.

Há muitos anos, governava o Ceará um poderoso chefe da oligarquia local, Antônio Pinto Nogueira Accioly, eleito senador nos últimos dias da Monarquia. Com o súbito advento da república no Brasil, o velho Accioly não chegou a ser empossado. Mas, como astuto cacique provinciano, ele  esperou pacientemente, que fossem amainadas as paixões dos primeiros tempos republicanos, para novamente se apoderar das rédeas do situacionismo no Estado.


Nogueira Accioly, no centro, de cartola e camisa clara, em visita ao Rio de Janeiro, ao lado de correligionários e familiares - 1910   

Governando-o longamente, ora sentado ele próprio na cadeira do príncipe, como chefe do executivo, ora através de prepostos por ele indicados, graças ao apoio de um bem montado sistema composto de chefes sertanejos, amigos e parentes caudilhescos.
Mas, como diz o velho ditado, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. A demorada oligarquia dos Accioly terminou por cansar o povo e a paisagem do Ceará. De resto, em todas as capitais do país, onde esses chefões prosperavam, o descontentamento e a revolta começaram a dar seus primeiros sinais. E onde havia maior liberdade de imprensa e muita surra em jornalistas desabusados, a virada começou a acontecer.

O Governo Federal, a quem não se pode negar certo faro nos momentos de exaustão popular, tomou afinal uma decisão: abandonar momentaneamente os chefões oligarcas à fúria da população. Assim, os terríveis coronéis do sertão, sentindo enfraquecer o apoio do poder central, encolheram-se e adocicaram-se. Mas o Dr. Accioly não era homem de amolecimentos e teve de ser deposto à bala pelos revoltosos de Fortaleza.
Escapando ao tiroteio, retirou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a viver num ameno exílio, tipo belle époque, cercado de correligionários que a ele se vieram juntar e chegando mesmo a usufruir de alguma influência junto ao Presidente da República.

Enquanto isso os coronéis do interior do Ceará, inspirados pelo carismático Padre Cícero, haviam feito um pacto no sentido de manter os ameaçados feudos oligárquicos no Estado. A 14 de julho de 1912, em substituição ao deposto Accioly, assume o governo, o Coronel do Exército Marcos Franco Rabelo, homem culto, de convicções democráticas. Foi recebido com entusiasmo pela população de Fortaleza, que logo o batizou de libertador. Tornou-se em pouco tempo muito estimado na capital.


manifestação popular pela posse do coronel Franco Rabelo, vendo-se a Rua General Sampaio em frente ao prédio do Tiro de Guerra - 1912

Mas o coronel Franco Rabelo, inspirado nos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, exagerou na sua campanha pelo aperfeiçoamento democrático no interior do Estado. Enquanto em Fortaleza o povo cada vez mais se entusiasmava com o Libertador Franco Rabelo, os coronéis, acuados no sertão, rilhavam os dentes, instigados pelo Padre Cícero.

Franco Rabelo decide agir duramente no interior. Manda seus soldados desarmar e prender cangaceiros. Pela primeira vez alguns chefes locais, ricos e cheios de prestigio, foram processados e compareceram a júri. Os coronéis inquietos, organizaram nos bastidores, um pequeno mas decidido núcleo de oposição ao bravo coronel, com fumaças de governante civilizado.


em 1912 foi lançada uma nova marca de cigarros, Libertador, com a imagem do governador Franco Rabelo. 

Acontece, porém, que Franco Rabelo escorrega numa casca de banana. Recusa apoio ao General Pinheiro Machado, candidato do próprio Presidente da República ao Palácio do Catete. E nessa época, o Presidente Hermes da Fonseca diz, abertamente, a um grupo de parlamentares: para o Franco Rabelo eu tenho muito pau, de agora em diante!

A esta altura dos acontecimentos, o ágil Padre Cícero, acolitado pelo médico e caudilho Floro Bartolomeu – seu primeiro ministro da caatinga – e mais os coronéis signatários do pacto de 1911, organizam um temível exército de cangaceiros, com armas contrabandeadas e – pasmem – apoio federal, para marchar sobre Fortaleza à maneira dos invasores visigodos.


Padre Cícero, ao lado de amigos e correligionários.

No Rio, em vão, o senador Rui Barbosa ataca o Padre Cícero, comparando-o a Antônio Conselheiro, e chamando-o de caudilho tonsurado. Os cangaceiros do Padre e dos Coronéis amotinados nem sabem quem é Rui Barbosa e já passeiam, ferozes, pelas ruas de Fortaleza, armados de rifles e punhais – sem esquecer seus rosários, pendurados no pescoço – provocando verdadeiro terror na população. E no meio dessa turba, incrível como pareça, circulavam aventureiros estrangeiros, fantasiados de jagunços nordestinos. 

Componentes do exército de Padre Cícero

Há uma narrativa de Rodolfo Teófilo que diz bem dessa multinacional revolucionária: “A Fortaleza chegaram um alemão, dois italianos, alguns turcos e árabes e um uruguaio, o célebre Dom César, um perito em arrombamentos de cofres”.
Era o Exército Popular do Padre Cicero. Todo o interior do Estado já estava nas mãos da jagunçada do patriarca. Arma-se ainda o povo da capital para defender seu governador. Os marítimos vão ao palácio e juram morrer pelo coronel. Nada assegura mais a legalidade. Franco Rabelo está perdido e sitiado por sertanejos barbudos, bandoleiros que lutam pelo Padre Cícero sob a proteção de Nossa Senhora das Dores.

O epílogo é digno de um romance de Jorge Amado ou Gabriel Garcia Marquez. Franco Rabelo abandona o Palácio do Governo, fardado, sob intensa aclamação do povo da capital. Dispensa, no entanto, a espada que deveria carregar à cinta. Prefere levar na mão um exemplar da Constituição Brasileira, um exemplar anotado pelo erudito João Barbalho. 
Foi-se para sempre o Libertador Franco Rabelo. Ao que tudo indica, não conhecia o Ceará. Nem o Brasil.

Crônica de Nertan Macedo, publicada em jornal de Brasilia.
fotos: arquivo Nirez, livro Memórias do Comércio e jornal O Estado.